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A AMB e a SBPT têm alertado continuamente a população e as autoridades para os riscos e impactos de uma eventual liberação dos DEFs no país e reitera o posicionamento pela manutenção da regulamentação estabelecida na RDC ANVISA nº 46/2009, ou seja, pela continuidade da proibição dos DEFs no Brasil.
 
Confira a nota:







 
 
POSICIONAMENTODA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA
(SBPT) SOBRE OS DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS PARA FUMAR (DEFS)
 
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) está na fase final de elaboração de seu
posicionamento quanto à liberação do uso dos DEFs e, neste oportuno momento, ciente da
forte pressão da indústria do tabaco, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia se
posiciona veemente contra a liberação da comercialização, importação e propagandas de
quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, se mantendo a favor da manutenção da RDC
46/2009. Além disso, exigimos medidas mais rigorosas para fiscalização e punição de
violadores desta resolução. Vemos com preocupação o aumento do uso desenfreado desses
dispositivos, em especial entre os nossos jovens.
 
Os cigarros eletrônicos são conhecidos no Brasil pelo termo Dispositivos Eletrônicos para
Fumar (DEFs). São chamados também de “vapes”, e-cigarros, e-cigs, e-cigarettes ou “pen drive”. Os
DEFs são uma ameaça à saúde pública, porque representam uma combinação de riscos: os já
conhecidos efeitos danosos à saúde e o aumento progressivo do seu uso no país. Em especial, esses
dispositivos atraem pessoas que nunca fumaram, persuadidas pelos aromas agradáveis, sabores
variados, inovação tecnológica e estigmas de liberdade.
 
A edição 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE, 2019) entrevistou estudantes
do 7º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio das redes pública e privada. Os maiores
índices de experimentação de cigarro eletrônico foram observados entre os escolares de 13 a 17 anos
da rede privada de ensino em todas as Grandes Regiões do Brasil em 2019. Os maiores percentuais
de experimentação de DEFs ocorreram na Região Centro-Oeste (23,6% na rede pública e 24,3% na
rede privada de ensino).
 
Sabemos que os cigarros eletrônicos contêm nicotina e várias dezenas de substâncias
químicas, incluindo cancerígenos comprovados para pulmão, bexiga, esôfago e estômago. Há, ainda,
o risco de explosões do aparelho e intoxicação. Infelizmente, a nicotina persiste como uma das drogas
mais utilizadas no mundo e o tabagismo, que matou mais de 100 milhões de pessoas no século XX,
poderá matar um bilhão no século XXI, com grande participação dos DEFs.
 
De forma sorrateira, a indústria do tabaco lançou esses produtos no mercado usando duas
estratégias principais: o discurso de redução de danos em relação ao tabagismo convencional e como
opção de tratamento para cessação dos cigarros combustíveis. Outra jogada foi propalar que os
produtos não contêm monóxido de carbono e, assim, tentar normalizar novamente o seu uso,
inclusive em ambientes fechados. Apresentados como “saudáveis”, os DEFs seriam a “solução
tecnológica” para o anseio de uma importante fração de tabagistas: a ideia de poder fumar sem culpa,
já que o produto “se trataria apenas de vapor de água” e não conteria substâncias tóxicas e perigosas.
 
Entretanto, não é essa a realidade sobre esses dispositivos.
 
Estudos científicos mostram que o uso dos DEFs, tanto agudo como crônico, está diretamente
ligado ao surgimento de várias doenças respiratórias, gastrointestinais, orais, entre outras, além de
causar dependência e estimular o uso dos cigarros convencionais. Em contrapartida, o conhecimento
sobre esses malefícios ainda é pouco difundido entre seus usuários.
 
A EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar induzida pelo cigarro eletrônico, é uma doença
pulmonar relacionada ao uso dos DEFs, descrita pela primeira vez no ano de 2019, nos Estados
Unidos. Essa lesão pulmonar foi atribuída, inicialmente, a alguns solventes e aditivos utilizados nesses
dispositivos, provocando um tipo de reação inflamatória no órgão, podendo causar fibrose pulmonar,
pneumonia e chegar à insuficiência respiratória. Até janeiro de 2020, o CDC, nos Estados Unidos,
registrou 2.711 casos de EVALI hospitalizados e até fevereiro do mesmo ano 68 mortes foram
confirmadas. A faixa etária média era de 24 anos, 66% dos acometidos pertenciam ao sexo masculino
e o tempo médio de utilização foi de 12 meses.
 
No Brasil, em agosto de 2020, de acordo com dados obtidos pelo The Intercept, por meio da
Lei de Acesso à Informação, a ANVISA havia notificado sete casos de EVALI (enviamos carta à agência,
que não atualizou esses dados). Ainda não temos estudos de base populacional que mostrem a real
prevalência de uso dos DEFs em nosso país, mas a Associação Médica Brasileira, em um de seus
artigos, relata a estimativa de 650 mil usuários.
 
Em 2009, a ANVISA estabeleceu a regulamentação que proibiu venda, importação e
propaganda desses produtos (RDC 46/2009). Contudo, a comercialização online dos DEFs é comum
e, apesar da proibição, até mesmo grandes lojas de departamento vendem dispositivos eletrônicos
para fumar, livremente, para crianças e adolescentes. Mesmo as ações e multas da ANVISA parecem
não inibir esse comércio.
 
Dados apontam que a redução dos números de fumantes no Brasil está estagnada e, o mais
grave, é que a prevalência de fumantes entre jovens de 18 a 24 anos residentes nas capitais brasileiras
aumentou de 7,4% para 8,5% entre 2016 e 2017. Vários fatores têm contribuído para o aumento do
número de fumantes jovens, como a ausência de fiscalização pela ANVISA da comercialização dos
DEFs pela Internet e o modelamento dos jovens por influencers.
 
Desta forma, a ampla utilização dos DEFs pode reverter, em pouco tempo, o sucesso das
políticas de controle do tabaco obtido em décadas de esforços do Programa Nacional de Controle do
Tabagismo (PNCT). A comunidade científica e de saúde pública brasileira só espera uma coisa da
ANVISA: que NÃO libere sua comercialização no Brasil. Que exerça seu papel de proteger a saúde
da população brasileira.
 
Além da manutenção da proibição definitiva desses dispositivos no Brasil, é necessário iniciar
uma rotineira e efetiva fiscalização da venda desses produtos, assim como buscar meios de impedir
que os grandes conglomerados de comércio varejista continuem a desafiar as autoridades de saúde.
Os cigarros eletrônicos não podem reverter décadas de esforços da política de controle do tabaco
no Brasil.
 
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT)

APOIO:

ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA (AMB)
 
 
 
Referências
 
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catalogo?view=detalhes&id=2101852
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